Prova

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Ibis Libris 2004 | Language: Portuguese

Pedras preciosas

Excesso, coletânea de poemas lançada em novembro de 1999, surpreendia o leitor atento pelo domínio e maturidade de Rosane Carneiro em lidar seus materiais sensíveis.  

E era um livro de estréia. Desde então, de intensa atividade literária, a autora reuniu essas experiências e nos dá, agora, o renovado prazer do contato com trabalhos mais recentes. Prova, dividido em três estados d’alma, surge daí, e, também, quando Rosane perambula pelo tradicional bairro carioca da Glória e cercanias boêmias, do pastoreio de seus próprios duendes.  

Nesses tempos de novidade a qualquer custo, do proclamado pós-tudo, Prova é um rally poético que testa o saber da forma como questão muito relativa. O continente é vasto na escultura de signos pessoais e intransferíveis. Talvez seja, como ela diz, qual oferenda /que desconhece a hora /dos rituais (in Liturgia).

Numa busca do registro das direções apaixonadas, aqui nada se oculta. Não há receio de nada. A poeta sabe muito bem que dizer tudo é forma: impressão que na alma / é pouco (in Tatuagem) ou vivo não sou eu /ou você /vivo é o que antecede (in Coisas vivas). 

 Tensão da véspera de enorme banquete, de como trajar-se para o derradeiro embate ansioso dos convívios inesperados – leitores? –, Prova tem várias pedras no caminho. Preciosas.  

Ricardo Gramos 


Tecelã de mitos

O erotismo pode ser vivenciado num livro de páginas em branco, em que resgatamos a plenitude dos corpos inscrevendo-lhe os versos que nós, leitores, jamais ousaríamos pronunciar, às seis da tarde, em plena metrópole. Assim podemos “traduzir” a experiência de “Ave-Maria”, poema que abre o livro de Rosane Carneiro. Somos, de cara, convocados ao livro por uma prece, ou por um torneio metonímico que nos rouba da razão urbana para o terreno “sagrado” do texto, veículo inconfessável e perene, indício de uma breve suspensão do tempo retórico, este tempo em que o prazer do contato encontra-se enclausurado pelo pensamento, como dizem os versos: “a face interna dos homens/ entardece em filosofias”. 

Pouco a pouco, atendendo ao chamado da prece, vamos descortinando o corpo das ruas e do eu narrativo, este sim, um dos mais ricos recursos estilísticos de Prova. Cidade e corpo que se procuram, mas fadados à perda do estágio mítico: esta vida, imaterial, que sobrepaira qual a sombra do gigante de Swift, capturado pelos liliputianos personagens da sátira urbana. “Meditação Azul” reforça a idéia da tentativa de se buscar pela natureza os Diálogos com Leucó, o último testemunho de Cesare Pavese sobre a perdida mitologia do amor, da morte e da dor: “Nas pedras em tranças/ alcançar/ o sentido/ da praia estendida sobre o vão/ Lençol de perguntas/ rebatendo na face/ – Para onde? Para onde?”. Rosane, nestes versos, não procura resgatar a linguagem do mar, das ondas que rebatem perguntas?  

O mar de Homero e seus rios podiam sentir a cólera e a tristeza dos homens em guerra. Os afrescos azuis de Rosane, postais líquidos da cidade carioca, também sentem o frio contraponto da filosofia e de determinada arquitetura, que, ao invés de se inserir como mais uma nota ao ritmo das formas sensuais e femininas da natureza, desenha uma fissura na paisagem: os prédios monolíticos, silêncios de concreto e vidro. Mas, por outro lado, as luzes nos arcos da Lapa, a igreja da Glória, o Cristo Redentor, são todos símbolos icônicos que se mesclam ao desejo, à poesia, e que se descortinam pelos versos de Rosane.   

“Canetas vazar-me-ão os olhos para que somente escreva visões de dentro, espaços sísmicos entre a mente e o coração abarrotado de esferas”. Ecos de Rimbaud? Para se fazer visionário, ou, vislumbrar a vida em meio ao caos urbano, é necessário um desregramento de todos os sentidos. 

Há o encontro entre a mulher do “vestido roxo decotado”, de “olhos atormentados do ontem, da bebida, da ansiedade”, e a freira, numa calçada imaginária do Rio de Janeiro: “Cálido contato, eu sei o que é ser assim, irmã”. A religiosa e a poeta dão-se as mãos em parceria do mesmo ofício: o de revestir o ordinário com o sagrado. 

Sagradas também são as montanhas: “Minhas palavras são grandes como as montanhas”. O corcovado, o morro da Urca, a pedra da Gávea dialogam a cada instante com olhos que sabem ler na geografia as páginas do livro oculto dos enamorados pela palavra: despir a fácies em clausura do idílico, afastar Tanatos por um ato de afeto. 

Em “Lanternas Vermelhas”, vagões do metrô se metamorfoseiam em dragão chinês. Como escapar ao rito cotidiano, à ansiada estética pelo ordinário? Caminho este que poderia nos recuperar do tempo previsível e mecânico do engenho ocidental, e que Rosane, recriando-se “larva apaixonada”, se deixa ser engolida e aos pensamentos, em gozo de amor intransitivo.       

“O AMOR, QUERIDO, É LIBERTÁRIO como uma multidão de campânulas ao vento, as damas-de-honra da chuva com o vão, na nave da aurora, na morte da hora atrás, no estertor do tempo, tragado pelos campos bandeiras de Deus”. Rosane Carneiro, como sáfica deidade, percorre o tênue caminho que hoje ainda resta a Eros. Tecelã de mitos,  nos dá o testemunho de que a tentativa de ultrapassar a distância que separa os amantes, a cidade do peregrino, ou a página do pensamento é uma só: um gesto de Proteu – transformar-se pelo olhar e pela palavra, desafio livre e possível. 

Leonardo Vieira de Almeida  


Poesia de concisão e crítica

Após lançar Excesso em 1999, Rosane Carneiro publica este ano nova série de poemas, Prova. A simples menção dos títulos já alerta o leitor para significativa constante estética no trabalho da autora. Trata-se da exigente autocrítica com referência à concisão e essencialidade da palavra. Se ela se julgou transbordante ao estrear, concentrou-se agora no mínimo da prova. Resulta de tal rigor uma poesia despojada de eloqüência, vacinada contra adjetivos, ludismos e demais supérfluos verbais. Uma poesia cuja dicção se avizinha do silêncio, reconhecido textualmente, por Rosane, como fundamental (“O silêncio é útil”). A omissão de títulos em algumas composições é sintomática conseqüência dessa atitude nuclear no processo criativo. Daí o poder de sugestão dos poemas ultrapassar o de declaração, remetendo o leitor ao amplo reino das conotações e do intercâmbio subjetivo.

Prova estrutura-se em três partes, mais comunicantes do que estanques, mas que se definem por predominância temática. Em “Indícios” tem-se o olhar sobre cenas urbanas, contracenando com momentos de meditação. Na seguinte, “Traje”, o próprio nome insinua

o cunho intimista das emoções à flor da pele, o viés confessional  tão bem expresso pelos termos “visões de dentro”, “espaços sísmicos entre a mente e o coração”. Já “Palato”, a última parte, se caracteriza pela exploração do veio erótico, a volúpia sensual que abarca o corpo e o nascedouro físico da palavra.

A presente coletânea de Rosane Carneiro mostra uma flutuação entre o verso e a prosa poética, o que no conjunto não comporta nenhum choque formal, uma vez que os versos se desdobram de forma solta, rejeitando qualquer simetria tradicional, a métrica em freqüente oscilação. No belo poema “Gira mundo” lê-se, explícito, o reconhecimento do seu processo de liberdade criadora: “Minhas palavras/são grandes como as montanhas/sentadas no chão da terra/ a observar o céu/ São palavras sem retorno/circulando livres/nos espaços entre os breus/ como as montanhas”. As composições guardam, portanto, um contorno do mundo natural, pois estão em afinidade com a emergência de movimentos interiores orgânicos e não submissos a esquemas abstratos externos.

Na abrangência temática dos 50 poemas, alguns aspectos se salientam, tais como o isolamento do ser urbano, consubstanciado de forma pungente no poema em que o “O cão de rua/ sorri com olhos tristes/ a nossa sincera e comum tragédia”. Outro, da maior relevância, é a emancipação dos dogmas religiosos conduzindo à “fraternidade livre”, ao vislumbre da condição humana  sem o estigma do pecado (“somos apenas/bichos divinos”). Graças ao olhar de aguda percepção crítica, a autora desmorona mitos e enxerga “sob a seda da pele/ cicatriz de estopa”. Sem estardalhaço e com sutilezas, enverga “sempre/ uma seda afiada”, o que lhe permite inclusive chegar à irreverência de mencionar um deus que em vez do pão “Nos dá o não de cada dia”.

Astrid Cabral