Corpo estranho

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Editora da Palavra 2009 | Language: Portuguese

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Corpo-catedral, corpo-latência, corpo-mundo, corpo e poesia. Para quem joga com tais amálgamas, a exigência de uma estranheza reveladora de todos nós passa ao largo dos modismos formalizantes e banais que sulcam – na carne já de todo em estado de metástase de nossa atual fatura poética – uma esclerose do corpo e de seu sagrado erotismo. Se erótico é sinônimo de vital, dar-lhe forma por meio de palavras assinala dois desafios de inteira ousadia. O primeiro, de torneio arquitetônico, elege os retábulos como acesso, poderia se dizer de linhagem gótica, aos estudos pictórico-sensório-epífanos dos quais o poema a Antoni Gaudí seria a sinédoque. Gótica significa, vale lembrar, goticística, referente a uma estrutura que lembra os labirintos fitomórficos em mise en abyme que florestam a catedral da Sagrada Família, corpo ex-cêntrico das calles de Barcelona. Já o segundo, em chave psicanalítico-filosófica, discorre sobre o precário tempo do mundo, fadado a estes outros “estranhos profetas”: a doença e a morte. 

Mas neste seu pequeno livro-corpo “indevido”, Rosane Carneiro não presume a fatal destinação dos seres, desde o “ovo” condenados a uma vita breve. Evoé, ruge a poetisa, convidando homens e mulheres ao renascimento de Dionísio, seja nesta existência bailarina, seja em outras de um aquém-túmulo. E se a vida pode ser “memória do corpo” ou “carne da história”, por um lado indica aquilo que resiste, por outro o que sacia a fome de si e do alheio. Ou seja, a fronteira entre o corpo inibido e o corpo desejante: “Ao alcance dos olhos a cura/ o que não se procura/ não se prescreve/ receita em descoberta”.       

Leonardo Vieira de Almeida 


As modulações de Eros, tão presentes em Prova, livro anterior de Rosane Carneiro, surgem ainda mais intensas e bem trabalhadas neste Corpo estranho. Na busca de palavras que digam a força da matéria, Rosane defronta-se com a “carne da aurora”, deseja a “embriaguez da luz”. Na sua poesia transforma-se o estranho em entranha, pois o outro já surge sob o signo da interioridade: “germine em mim/a pele do homem amado”. Sorver o corpo da paisagem (“os músculos do vento”) ou perder-se na paisagem do corpo são movimentos que apontam para a mesma direção: a da palavra poética entendida como uma erosgrafia.  

Antonio Carlos Secchin 


O sacro, o profano e o corpoObras de Rosane Carneiro dialogam com Hilda Hilst e Frida Kahlo

Corpo estranho, terceiro livro da poeta Rosane Carneiro, sacramenta uma vocação. Em Excesso, o primeiro, de 1999, mostrava-se dona de seus limites e transgressões em passeios pelo corpo e pela alma. A voz sacra clamando santos e ditando preces numa latinidade mística intercalava com o profano da matéria, evocando o universo pictórico da mexicana Frida Kahlo (1907-1954). Ainda que o titulo seja Excesso, segue a sugestão de Ezra Pound (1885-1972) da busca pela palavra exata. Rosane só escreve o que e insubstituível.

Prova surgiu em 2004. O título, que se justifica numa aprovação de conteúdo, ou no rito de passagem, como verbo ou substantivo, abre um leque de possibilidades e indica uma obra coerente. A voz é reconhecível. Os mesmos elementos: o sacro, o profano, o corpo. A mesma característica de estilo e concisão. Se no primeiro livro o excesso era necessário – excesso de imagens poéticas – no segundo o excesso é lembrado como algo que já foi, trazendo a presença do tempo no movimento mesmo da busca por uma maior precisão, no enxugamento das palavras e refinamento do uso.

Em Corpo estranho, os elementos de Excesso e Prova se reafirmam. Na nova produção, a ratificação do corpo com cicatrizes, raízes plantadas no chão como pernas humanas, ou pilares de concreto através da paixão e da razão. De novo se pressentem os tons de Frida Kahlo, talvez em telas menos rubras.

Corpo estranho vem maduro. E para ficar no domínio dos quadros, o leitor fazendo uso de sua imaginação poderá reconhecer, entre uma página e outra, a senhora de cabelos brancos, isolada numa casa no mato, com um cigarro nos dedos, olhando para você da janela. Trata-se da percepção de um diálogo com Hilda Hilst (1930-2004). A influência da poeta paulista na obra da jovem carioca Rosane Carneiro não se faz pela semelhança apenas de alguns dos elementos presentes em Hilda. Isso se poderia dizer dos livros anteriores. O que se revela, mais do que influência de estilo, é o diálogo, a continuidade, a resposta à voz antecessora. Citemos um poema: “Eis minhas patas/ toma-as com cuidado/ estão acerca de mim/ como leões de chácara/ e prantos de gárgulas// toma-as com amor/ veste-as novamente/ de força/ fá-las fulgurar/ para o baile do futuro// verte-as em crinas/ de vigorosas tranças/ cura-as com punho de lavrador/ toma-as de novo/ pernas raízes colunas eixos// pilares”.

Ambas as autoras conseguem evocar o silêncio e celebrar o reconhecimento de seus corpos, como descoberta incessante que não para de surpreendê-las, movendo-as para uma escrita de testemunho e à libertação da mudez. Silêncio quebrado pelo poema, pela construção de imagens. Com este terceiro livro, Rosane Carneiro firma-se com dicção e propostas bem definidas, o que faz dela um nome a ser lido e divulgado para suscitar novos diálogos. 

Elaine Pauvolid