Drone


Carnaval Press, 2015 | Languages: Portuguese & English
DRONE, de Rosane Carneiro
A primeira coisa que me chamou a atenção em Drone foi o próprio drone. Esta palavra DRONE vermelha da capa derramando estas linhas brancas como sinais de pegadas ou rastros por onde passa sobre a capa. Também nos chama a atenção, este enorme drone de aparência robótica que parece possuir autonomia para ir e vir sobre o azul espacial da capa. Ele ocupa o centro como animal reinante em controle do presente – o livro – que aqui temos e vemos. Entre ele e o seu nome – DRONE – está o nome da poeta Rosane Carneiro. Quase representando ali, na capa, o humano que, na posição horizontal talvez olhe para o céu, admirando e desconfiando deste ser gigantesco que aqui pode muito bem simbolizar a tecnologia presente e futura.
Com esta percepção logo pensei, quando vi o livro, será este livro um livro de paisagens contemporâneas tecnológicas, com as quais a poeta dialogará de forma que revele sua admiração e sua preocupação com a tecnologia presente e vindoura. Pois bem, enganei-me. E isto é o que acontece com toda leitura de capa que fica só na capa. Terminamos por nos enganarmos e fazer um falso julgamento sobre o interior destas florestas de palavras que são os livros, e somos nós.
O caso é que não encontraremos novamente, em nenhum parte ou poema ou verso a palavra drone. Neste caso, tanto o drone quanto a capa azulada do livro, podem funcionar como um céu que repousa muito acima das páginas brancas e seguintes, onde as negras letras e palavras circulam e se reúnem para dizer-nos o que pensa, sente, e é a poeta Rosane Carneiro, com o seu “corpo exausto que atravessa o frio” enquanto “aquele sol ainda me dói”.
Este dois versos citados no parágrafo acima, respectivamente abrem e fecham o primeiro poema do livro. E para mim, podem ser bastante significativos das sensações que esta coleção de poemas transmitem; ao menos me transmitiram. A sensação de um ser que como ser sensível traz sempre este sol que dói enquanto atravessa-se o cansaço que é viver uma realidade que cada vez mais parece estar cheia de “gaps”, vãos, não lugares, lugares alguns, onde nada é seguro, tudo é volátil, uma vaga, um vagar o vago.
Mas como acontece, ou costuma acontecer, com artistas, exploradores e conquistadores de seus medos, abismos, incompletudes, Rosane Carneiro já nos diz, em seu segundo poema do livro, como ela pretende enfrentar está falta de um lugar, de uma união entre as coisas. E é indo “até o fim deste trajeto insular” e “submergir no gap da diferença. I don’t mind.”
E que assim seja. Pois nossa poeta não se preocupa em viajar “no dessemelhante” “à entrada das invasões” onde como “satélites” que somos, e ela como poeta é mais que nosotros, que não passamos de simples antenas, capaz de admirar o mostruoso e poliformo mundo da novidade.
Sabemos que um mundo fixo, onde todo lugar fosse conhecido, onde tudo já estivesse feito, onde tudo fosse seguro, completo, sem “gaps”. Seria um lugar onde a novidade talvez já não fosse possível. Porém, ainda há um lugar onde com mais probabilidade do que o espaço fixo e completo, podemos ter certeza de que a novidade não é possível, e este lugar é o nada. Pois o nada é o lugar – melhor seria dizer, o fato – mais imutável. Mais que o ‘todo’, onde sempre poderá haver a dúvida se a totalidade do todo permanecerá. Já com relação ao nada, não nos será possível a dúvida nem do criar e muito menos a do destruir. Rosane Carneiro parece saber disso ao escrever “rumar para o nada é seguro.” Mas ela, eu , nós, não queremos a seguridade do nada. Se assim, preferimos um verso lindo como “desviar do chão, acometer castelos, contar nuvens e morrer pelo que não veio.”
Sim, amigos e amigas, desviemos do chão seguro e busquemos o vazio, com ímpeto quixotesco busquemos o impossível que é acometer castelos. Ou se isso, fiquemos a contar nuvens de modo contemplativo e morramos pelo que não aconteceu. E que por escolha, estejamos “no não lugar” sendo “o vazio o incerto.” Só não sejamos o nada, seguro e infértil. Sejamos esta “mística bomba-relógio” “terror das perpetuidades”, e quem sabe, como a poeta, um dia poderemos dizer “porém terei vivido”.
Drone é prova concreta de que menos é mais. São quinze poemas, a maioria poemas curtos que conseguem mexer com nossos sentimentos através de imagens, jogos de linguagem criativos, e com versos de uma beleza ímpar. Aqui uns exemplos: “Todos os escritos uníssonos num estouro…”, “e terei vivido assim: lírica fracção potencializada…”, “Daqui para dentro (rito poético) o avesso do eu segue rumo ao universo.”
Nestes três belíssimos exemplos da arte poética da Rosane, vemos este seu buscar a união, a potencialização e a universalização dos escritos, da vida e do eu – que talvez sejam os três, a trindade do seu viver – como experiência lírica, mística e poética (rito poético) contra a sensação de falta – “gap” deixada por uma atualidade que parece cada vez mais cheia de menos atualidade e mais virtualidade.
Outra face dos versos da Rosane, como já vimos, serve para decifrarmos fatos biográficos da relação da poeta tanto com a língua inglesa quanto com a Grã-bretanha. Versos como “contendas de solidão os ventos da grã-bretanha…”, “vi Albion outra noite…”*, “Entre boots, bricks e brits ela sorria…” ou com o nome de um dos poemas chamado “Stratford-upon-Avon”, cidade da Inglaterra conhecida por ter sido o lugar de nascimento de Shakespeare. O livro mesmo foi impresso em Londres, e eu fui um dos cem felizardos que conseguiram uma cópia.
Tomo a liberdade agora, e reproduzo aqui de forma íntegra, um dos poemas que mais me impressionaram. E que depois descobri, também é um dos preferidos da poeta.
volátil
Este papel qualquer outono leva.
Mapeamento só de delicadezas
pequenas canções de criaturas, embates
soturnos solares desesperos. O papel
– assim, brotado dos versos
toda água apaga, nenhum vestígio e
mácula de um meio, sem fim ou começo a
afogar-se no nada. Do tempo.
Permanece no entanto tudo que evola.
Papel, tinta, resgate vão já
findaram, mas eis a letra indelével e solta
(volita em teu entorno)
pictograma do cosmos, palavra
transmutada: não forma, até novo
susto, menino, poeta ou louco que a
transpasse e conceba.
É difícil para mim exagerar o quanto gostei deste poema. Ele vai da morte “outono leva” à vida “transpasse e conceba” de forma volátil, “mapeando delicadezas” que durante o percursso da realização do poema nos mantêm encantados com a línguagem “indelével e solta”, e transmutada, que nos assusta com cada criação de cada um dos seus dezesseis versos que produzem ao final uma harmonia quase perfeita entre o menino, o poeta e o louco – ou diria, entre a inocência, a arte, a coragem, a irônia e o “gap” – pois o louco, e o menino, e o poeta, são gaps na nossa perfeita racionalização da vida.
Como disse, o poema é formado por dezesseis versos e justamente no oitavo verso acontece a divisão entre o que irá “afogar-se no nada” – no seguro – e o que permanece como “tudo que evola”, tudo isso que “(volita em teu entorno)”. Este verso que acabamos de citar, “volita eu teu entorno”, por exemplo, é um exemplo mágico de como a poesia trabalha ou pode trabalhar com a forma do poema para produzir-nos sentimentos, ideias e prazeres que vão além dos possíveis apenas com a palavra.
Se voltamos a observar o poema, vemos que os versos não possuem espaço entre eles e iniciam-se no mesmo ponto extremo direito da página. Sem embargo, isto não é o que acontece com o verbo que mencionamos acima:
Permanece no entanto tudo que evola.
Papel, tinta, resgate vão já
findaram, mas eis a letra indelével e solta
(volita em teu entorno)
pictograma do cosmos, palavra
transmutada: não forma, até novo
susto, menino, poeta ou louco que a
transpasse e conceba.
E mesmo estando fechado entre parênteses, transmitem em relação aos outros versos, esta sensação de estar partindo, voando, indo e girando em nosso entorno. Até mesmo pelo fato de ele não receber ponto-final ao final afinal. É uma síntese visual sublime e um belo exemplo de como a estrutura do poema diz sobre as virtudes poéticas, neste caso da poeta, e a possibilidade reservada à poesia de no poema fazer-se mais presente do que em qualquer outra forma de literatura.
Outra harmonia – desta vez entre palavras – que neste poema encontramos, é entre as palavras “leva”, “evola” e “conceba”. Já mencionamos como o poema começa magistralmente com leva e termina grandiosamente com conceba, mas entre as duas encontramos já no primeiro verso, do que podemos considerar a segunda parte do poema, à palavra evola, que une de maneira imaculável aos dois outros termos das extremidades do poema:
“Este papel qualquer outono leva.
…
…
…
Permanece no entanto tudo que evola.
…
…
…
transpasse e conceba.”
Não menos significativo neste poema, é o fato de que ele é o único poema do livro – além do poema com o nome próprio da cidade de Stratford-upon-Avon – que possui título “volátil”, que parece moldar-se melhor ao movimento dos nossos lábios estando sem o “v” maiúsculo no começo.
Concluo dizendo que adorei viver o DRONE. Foi muito prazeroso, divertido e enriquecedor. Muito mais há para se dizer do livro. Como por exemplo, como está retratado a ideia de tempo e espaço, dois conceitos que também são uma constante dentro dos poemas do livro. Um exemplo é o próprio poema que analisamos de forma mais detalhada. É exatamente um “Do tempo.” que intermedia a primeira e a segunda parte deste poema.
Enfim, agradeço a poeta Rosane Carneiro por dividir seus poemas comigo. E parabéns, são poemas belos pela profundeza com que comunicam as ideias, sentimentos e experiências.
Gostaria também de mencionar que o livro é bilíngue – português e inglês – e a tradução dos poemas foi feita pela também poeta Virna Teixeira. Parabéns Virna! E é de se parabenizar a todos que participaram deste projeto e acho que podem se sentir orgulhosos do resultado.
*Albion é o nome mais antigo conhecido e utilizado como nome desta ilha que hoje conhecemos como Grã-bretanha
Thiago Alexandre Tonussi