Excesso

capa excesso

Self published 1999 | Language: Portuguese

Poesia para brilhar sobre o caos 

Dona de uma linguagem moderna, sem ser modernosa, e, atual, sem estar presa a modismos vanguardeiros, tão em voga – onde a busca de um pseudo-hermetismo torna a poesia cada vez mais perto do Olimpo de uma elite privilegiada, Rosane Carneiro, neste seu primeiro livro, consegue equilibrar forma e conteúdo, sem arroubos formais ou falsa erudição europeia (prenhe de elucubrações híbridas, vazias, de pura retórica ininteligível). Quase intimistas, quase sem exterioridades, seus poemas são para serem lidos em silêncio. Assim, o leitor, calmamente, vai descobrindo pontos secretos, sinais que podem passar despercebidos a olhos rápidos. A poesia de Rosane Carneiro é humana, comunicativa, sem radicalismos. Lê-se com prazer.  

Excesso, a obra de estreia, trata, na quase totalidade, do “amor”, em suas várias vertentes. Tema árido para um autor iniciante. Rosane Carneiro, porém, consegue driblar o perigo. Enganosa em sua forma límpida, a poesia flui simples, e, através dessa aparente, mas difícil simplicidade, vislumbra-se um nível excelente de elaboração poética. Versos agudos de uma poeta que possui poema pleno e vigoroso, sem cair no risco do discurso banal, aliando sensibilidade e espontaneidade à racionalidade com que a forma induz ao poema.  

Em seus versos, dois elementos essenciais à poesia são relevantes: a combinação na cadência de sons e a harmonia perfeita na escolha da palavra poética – sonoridade, ritmo, silêncio. A musicalidade invadindo os versos. 

O poema de Rosane Carneiro não é comportado, antes inconformado, e, apesar de possíveis influências (Drummond, Vinícius, Bandeira, Pessoa…), a poeta ignora as receitas, não copia bulas, colocando-se à disposição tão-somente da emoção, que tenta controlar através de invenção poética própria, buscando encontrar o essencial de seu ritmo, e a melodia certa de sua expressão interior. Como, por exemplo, neste belíssimo poema de acento cabralino: “A pedra é/como o humano/desaprendeu/a ser” (Humanidade). 

A poeta afirma fazer uma poesia “feminina”, sem pejo do que possa essa palavra, hoje em dia, significar. À maneira, talvez, de Adélia Prado: “Poesia feminina/Encantada/Iludida de torpor/…Cheia de estrelas” (Ao meio). É romântica, sim, por que não? Estrelas, alma, saudade, eternidade, breu da noite, passarinho, fada, flor…Mas que não se enganem os desatentos: sua poesia vem “movida a trator”. Esse, talvez, seja o poema-chave para se compreender a lírica de Rosane Carneiro. Quando pensamos que sua poesia pode cair no marasmo de um lirismo pobre e ralo, a poeta nos surpreende com seus versos, assustando-nos com soluções surpreendentes: “Mago/corte-me em três/retire cinco cartas/que a melhor está sob a manga/Findo o jogo/cá estou/Tua,/…Imperatriz de novo” (Tarot

Rosane Carneiro persegue o que todo grande poeta, igualmente, persegue, ou seja, o artifício da condensação, onde, com poucas palavras, iluminam-se centenas de significados.  

É, de fato, uma poesia delicada, bela. Um corte-lâmina nos dias de hoje. Há, nos poemas, tanto despojamento, tanta entrega, que o ato de se expor, quase pudicamente, já é digno de aplausos.  

É nua a sua escrita. Livre de censura. Desabrida. Aliás, é no poema e na palavra que a poeta se realiza, sente prazer; um doce prazer e a liberdade plena: “O nosso embate madrugada a dentro/é feito de silêncios rudes e rugidos mansos/descontrole e certo pânico/Mas é só nosso/Difícil, angustiante/Parto puro/Sexo doce/…Eu e a palavra” (Encontro). E, desse parto, nasce o poema, em forma de liberdade. 

O caminho está aberto. Mas, a sorte lançada não se encontra nos tarôs ou nos ventos divinos. Rosane Carneiro sabe que, na leitura dos grandes poetas, na sabedoria do aprendizado, no trabalho constante, na desarrogância do orgulho, é onde habita o segredo. O livro de estreia, Excesso, é repleto de belas imagens, de soluções poéticas inteligentes e altamente pessoais. E, por possuir soluções poéticas altamente pessoais, não corre o risco de viver à sombra, de não alcançar seu próprio vôo. A poesia de Rosane Carneiro é necessária – veio para brilhar sobre o caos.  

Tanussi Cardoso